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O Café Paulista e o “café subsidiado”.

O pé de café — eis a árvore que os imigrantes acreditavam dar frutos de ouro.

Ao saborear o líquido amargo, muitos inquietavam-se: teriam atravessado o oceano para cultivar esse fruto tão amargo?

O café brasileiro já é tão familiar aos japoneses que fica difícil dissociar a palavra “café” da palavra “Brasil”.

O Brasil é o principal produtor de café do mundo, sendo responsável por mais de 30% do café produzido no planeta. Graças à instabilidade do solo brasileiro, fazendo com que haja anos de boa safra e anos em que não há safra alguma, o mercado do café oscila com facilidade no mundo todo.

Atualmente, o Japão é o terceiro maior importador de café no mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos e da Alemanha.

Nos últimos anos, Brasil, Colômbia e Indonésia têm-se destacado como os principais exportadores de café para o Japão, sendo responsáveis por 60% de todo o café consumido no arquipélago (30% do café importado pelo Japão vem do Brasil, que ocupa a posição de liderança).

O café é consumido em larga escala dentro do próprio Brasil. Já o Japão é o quarto maior consumidor do grão no mundo (de acordo com as estatísticas da Sociedade Cafeeira do Japão).

Mesmo quando confrontadas com outras bebidas bastante populares, como o chá verde, o chá preto e as bebidas gaseificadas, vê-se que o consumo regular do café já superava o do chá verde entre os anos 70 e 80, havendo também um aumento na procura por bebidas à base de café enlatadas. Assim, o café e seus derivados vêm conquistando o mercado de maneira despreocupada.

O volume de café importado anualmente, que não chegava a cem toneladas em 1912, ultrapassou a marca pela primeira vez em 1913; em 1926, foram importadas 1.026 toneladas do grão, o que significa um aumento de quase dez vezes no volume importado.

Uma das razões para o aumento no consumo da bebida foi a ocidentalização dos hábitos alimentares das pessoas comuns entre os períodos Meiji (1868-1912) e Taishō (1912-1926), representada no livro de Gensai Murai sobre gastronomia, Shokudōraku. Outra causa, associada à época da proliferação dos cafés à moda ocidental, foi a abertura do Café Paulista, de Ryō Mizuno.

O café brasileiro já aparece nas listas da alfândega a partir de 1916. Verifica-se a proporção de 43,6% para o café brasileiro, contra 0,5% do café javanês em 1916.

As primeiras sacas de café que Ryō Mizuno recebeu em forma de doação do governo do Estado de São Paulo chegaram ao Japão em 1912. Não se sabe qual era a proporção entre o café brasileiro e o café de Java; sabe-se somente que, até 1922 (ano em que o café deixou de ser distribuído gratuitamente a Mizuno), o café brasileiro obteve a primazia sobre o café javanês.

Mizuno — que contribuiu significativamente para a vinda do Kasato-maru ao Brasil, abandonando em seguida o seu papel no projeto imigratório — batizou o café oferecido gratuitamente pelo governo estadual de “café subsidiado”.

Utilizando o café que recebia do Brasil, Mizuno fundou o Café Paulista a fim de divulgar o produto e abrir novos mercados até então inexplorados. Foram abertas ao todo 23 filiais (uma delas em Shanghai), começando na região de Ginza. O Café Paulista, já no período Taishō, lançava as bases para a abertura de novos mercados para o café e para o surgimento de novos talentos no ramo oferecendo o “café subsidiado” como um sub-produto da viagem do Kasato-maru e “café barato e comida simples a preços baixos”.

Já não se diz mais que um passeio pelos arredores de Ginza (“gin-bura”) deva incluir necessariamente uma xícara de café brasileiro. Em cada esquina vê-se uma cafeteria cuidadosamente montada; além do mais, pode-se adquirir a bebida escura em máquinas próprias para esse fim.

No ano do centenário da imigração japonesa, registraram-se altos índices de venda de café.

Não cabe perguntar o que teria acontecido se o “café subsidiado” de Ryō Mizuno nunca tivesse chegado ao Japão.

Enfim, passaram-se cem anos desde que os imigrantes do Kasato-maru partiram em direção ao Brasil.

Bibliografia.

  • Horibe, Yōsei. Burajiru kōhii no rekishi. [São Paulo], Ed. particular, 1973 <n.º chamada: DM234-1>
  • Zen-Nihon Kōhii Shōkō Kumiai Rengō-kai “Nihon kōhii-shi” Henshū Iinkai (ed.). Nihon kōhii-shi. Tokyo, Zen-Nihon Kōhii Shōkō Kumiai Rengō-kai, 1980 <n.º chamada: DM234-5>
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