Artigos «Haiku e Emigrantes japoneses que foram para o Brasil»

Haiku e Emigrantes japoneses que foram para o Brasil

O Haiku é frequentemente composto dentro da comunidade nipo-brasileira, embora seja geralmente desconhecida no Japão
Não é difícil de imaginar que a poesia em forma de literatura curta vista unicamente no Japão, conhecida como Haiku e Tanka, mantiveram a identidade dos imigrantes e serviram de apoio aos seus sentimentos ao longo da vida em um país diferente. Aqui, porfalta de espaço do artigo, vamos apenas discutir sobre Haiku e principalmente sobre os poetas dos primeiros períodos (a partir do final de 1920 até a década de 1930), mas mesmo hoje, a composição do Haiku e poemas continuam frequentes.

Haiku composto como imigrante


O navio de imigração chega olhando acima a cachoeira seca
       Hyoukotsu Uetsuka


Este é um haiku composto por Shuhei Uetsuka (pseudônimo: Hyokotsu 1876 a 1935) quando ele desembarcou no porto de Santos no navio Kasato-maru para supervisionar o primeiro transporte de imigrantes como um representante da Companhia Imperial de Colonização. Diz-se que este foi o início de Haiku da comunidade nipo-brasileira, e sua importância é tal que a data de morte do Hyokotsu forma o kigo(palavra que representa época em Haiku) conhecido como “Hyokotsu ki” (data da morte de Hyokotsu). Diz-se que o Uetsuka organizou o Kukai(encontro entre os poetas de Haiku) reunindo 4 a 5 imigrantes a bordo do navio.

Apresentaremos aqui, alguns Haiku compostos pelas pessoas envolvidas no negócio de emigração e pelos consulados após a era do Uetsuka. Tais Haiku expressam claramente as sensações de desconforto e tristeza dos imigrantes.


Imigrantes que fugiram durante a noite relembram as estrelas do campo árido
       Hyokotsu Uetsuka

Discurso de anti-japonês no cruzamento da rua, com grande protetor solar
       Mesmo autor acima.

Uma criança nascida no navio de imigrantes, gradua-se
       Ikubetsushun Miyasaka

Felicidade na colônia em um encontro de yamijiru
(Yamijiru é uma sopa feita no escuro utilizando ingredientes aleatórios trazidos pelos participantes. O grupo não sabe quais são os ingredientes trazidos e também não enxerga o conteúdo da sopa que comem no escuro)
       Mesmo autor acima.

A criança completa os 12 anos de idade sem conhecer o jogo de hagoita
(hagoita é um dos jogos tradicionais que tem sido realizado no Ano Novo no Japão, que utiliza raquete retangular decorada para bater a semente de saboeira decorada com pena)
       Gyousetsu Ichige

Imigrante esconde a bandeira do sol nascente no fundo da cesta de vime
       Dokuro Kouyama


Kunihito Miyasaka (pseudônimo: Ikubetsushun 1889 a 1977) era um funcionário da Companhia Oriental de Emigração e trabalhava como representante da empresa no Peru a partir de 1913, e em 1919 ocorreu a fusão da sua empresa que passou a ser conhecida como Sociedade de Desenvolvimento Internacional, onde assumiu a posição de chefe do grupo de pesquisa e retornou ao Japão em 1930, onde se tornou o diretor executivo da Federação das Cooperativas de Emigração Ultramarina. Ele se mudou para o Brasil em 1931 como presidente-executivo da Sociedade Colonizadora do Brasil Ltda (BRATAC).
Mais tarde, ele se tornou o fundador do Banco América do Sul. Kozo Ichige (pseudônimo: Gyousetsu 1884 a 1945) era o Cônsul Geral em São Paulo no início da Era Showa (Era Showa foi o período entre 1926 e 1989). Ele trabalhou no Brasil durante 9 anos a partir de 1926. Rokuro Kayama (pseudônimo:Dokuro 1886 a 1926) veio ao Brasil em junho de 1908 no navio Kasatomaru com o primeiro grupo de imigrantes para ajudar o trabalho de Shuhei Uestuka da mesma terra natal, e mais tarde tornou-se o presidente da Seishū Shimpō.

Haiku como estes, que fala sobre as dificuldades dos imigrantes, continuou a ser composta em grande número e pode-se dizer que este é de fato, uma das características do Haiku dos imigrantes. Dentre eles, há também muitos exemplos de pessoas que começaram a compor o Haiku somente após migrarem para o Brasil. Por exemplo, a Harue Meguro (nasceu em 1908, imigrou em 1929) escreveu no prefácio da coletânea de haiku "Kohi no Hana" (Flor do Café), a seguinte frase:

“Na época do assentamento muitas pessoas faleceram devido a doenças endêmicas ou excesso de trabalho, e eu mesma passei perto da morte várias vezes. Foi nesta época que comecei a compor Haiku, que serviu de apoio mentais e se tornou a minha salvação.”


Vaga lembrança de corte e ajuste do monpe(calça de trabalho), preparo para o inverno
       Harue Meguro

Praticando a queimada, não me conformo da residência permanente
       Mesma autora acima.


Através destes Haiku, podemos imaginar as dificuldades enfrentadas pelos compatriotas no Brasil distante e não desenvolvido.

Principais poetas que sustentaram os primeiros períodos de Haiku

No entanto, Haiku dos imigrantes não são apenas aquelas que relatam sobre o sofrimento da imigração.

Hyokotsu e seus colegas aprenderam o Haiku mais tarde, com o Keiseki Kimura (1867 a 1938) que imigrou em 1926 e com o Nenpuku Sato (1898 a 1979) que imigrou em 1927. Nenpuku era o discípulo de Hototogisu e recebeu de presente despedida, o seguinte Haiku “é sua missão arar a terra e criar um país de Haiku”do Kyoshi Takahama quando veio ao Brasil.
Tomou como sua filosofia a “representação objetiva” e “uso de belezas da natureza como tema chave da poesia” ditada pelo Kyoshi, e compôs a natureza como ela é. No entanto, as naturezas compostas em suas obras, são as naturezas do Brasil.


Relâmpagos e pequenos raios que dissipam para todos os lados no meio do mar de árvores
       Nenpuku Sato

Mesmo violentamente, a grande aranha constrói um recinto
       Mesmo autor acima.

Pousa no chão e retorna para o galho, o acasalamento dos pássaros
       Mesmo autor acima.


Após a guerra, o Nenpuku tornou-se o primeiro júri de seleção da coluna de Haiku publicada no jornal nipônico "Paulista Shimbun", e também publicou a revista de Haiku "Kokage" (sombra de uma árvore), criando desta maneira a era de ouro do Haiku na década de 1950.

Juntamente com Nenpuku e Kikuji Iwanami (um poeta da Escola Araragi), Keiseki Kimura formou o primeiro encontro do literário da comunidade Nikkei do Brasil em 1927, o "Okabokai" e publicou a revista "Okabo". Diz-se que, pelo fato de o Nenpuku acreditar somente no princípio de “uso das belezas da natureza como tema chave da poesia”, acabou entrando em desacordo com o Keiseki sobre o ponto de vista do haiku.

Por ventura, ele tornou-se júri quando o Gyousetsu publicou a revista de Haiku "Minamijujisei" (Cruzeiro do Sul), e também era o primeiro júri da coluna de Haidan (sociedade dos poetas que compõem o Haiku) que foi publicado no jornal nipônico “Nippaku Shimbun "(Jornal Brasil Japão).


Brilhante e claro, grandes ondulações do campo de café
       Keiseki Kimura

Visualizando a lua ao distanciar-me da cidade em um trem
       Mesmo autor acima.

Aos poucos, todos se reúnem aproximam trazendo cada uma lâmpada, para o estudo noturno de português
       Mesmo autor acima.


Kigo (termo que representa a estação em que o poema foi escrito) utilizado em Haiku do Brasil

Embora queira compor um poema sobre a natureza no Brasil, o clima é diferente se comparado ao do Japão. O Brasil possui um clima tropical e subtropical. Então, como os autores representavam o Kigo?

O "Burajiru Kiyose" (Coleção dos Kigos no Brasil), que é de propriedade da nossa biblioteca, define que o verão é entre novembro e janeiro, o outono entre fevereiro e abril, o inverno entre maio e julho e a primavera entre agosto e outubro. É exatamente o oposto, uma vez que o Ano Novo é comemorado no verão. No entanto, consegue-se ver através dos exemplos de Kigo utilizado em outono, não apenas o crisântemo, mas também a tangerina (que só aparece em inverno no Japão) e a rosa de sarom ( que só aparece em verão no Japão), demonstrando que o Brasil não possui as 4 estações bem definidas como no Japão.

“Não há distinção clara entre a primavera, verão, outono e inverno como no Japão, havendo apenas a distinção entre a estação chuvosa e seca, o que não permite ter a sensação aguçada sobre as estações como no Japão.” (“Haiku do Brasil” Ikubetsushun Miyasaka “Hototoguisu” 55(10)1952.10).
O Nenpuku descreve no posfácio de "Kokage Zatsuei-shu" (1979) (Coletânea de poema em sombra de árvore) as seguintes palavras.
Após morar 3 a 5 anos no Brasil, onde é subtropical e dito não possuir quatro estações do ano, percebe-se que de fato, existe transição das estações entre primavera, verão, outono e inverno, embora tal distinção não seja tão clara como no Japão. (uma parte omitida). É impossível para os japoneses, que possuem o sentido aguçado quanto à transição das quatro estações, ficarem apenas sentados olhando tais mudanças. A partir de então, iniciaram-se as composições do Haiku.”

O ato de não deixar de ver a transição das quatro estações está ligado com a proteção da identidade japonesa. E também, o fato de olhar para a natureza do Brasil com a percepção japonesa, provavelmente permitiu a reorganização dos complexos sentimentos com relação ao território ainda não habituados para morar.

A seguir, alguns exemplos de uso de Kigo típico do Brasil. (retirado a partir de "Burajiru Kiyose")


Videira de São João pende sobre o muro de barro, estreitando a rua
       Gyofu Miyauchi

O rádio toca, mas em dúvida se tem alguém em casa ou finge não estar, flor de manga
       Katsuya Taki

Entregando-se ao redemoinho, jacaré emerge para a superfície
       Hatsuo Ishibashi

Um afluente de Amazonas em direção ao vilarejo da pimenta-do-reino
       Hitoshi Imade

Corte das árvores das beiras das ruas, que propagam a malária
       Sanchin Sakane


*Videira de São João representa a vegetação da família Bignoniaceae. Manga, representa a fruta manga. E demais termos como o jacaré, Amazonas e malária representam o Kigo.

Nos últimos anos da sua vida, o Kyoshi disse que o Haiku é a “manifestação do universo” e “arte e literatura do paraíso”. “As plantas seguem os movimentos do universo brotando, aflorando, frutificando e morrendo. As pessoas também seguem os movimentos do universo nascendo, crescendo, envelhecendo e morrendo.” “Por mais que esteja sofrendo com as dores da doença, os sofrimentos da vida podem ser esquecidos nem que seja por um instante ao permitir o toque das belezas da natureza, levando à sensação de estar no paraíso.”(“Caminho para o haiku” p.43, 65 Kyoshi Takahama 1955). Diz que ao conectar-se com a natureza através do Haiku, a pessoa reconhece que faz parte do universo e com isso, consegue esquecer as dores da doença e os sofrimentos da vida por um instante.

Parece que tal atitude de depender do poder do Haiku e o desejo de sucesso dos imigrantes coincidem. Após muitos esforços, os imigrantes estabeleceram as suas raízes em país desconhecido, desejando o sucesso dos negócios e a prosperidade dos seus descendentes. É lamentável terminar a vida apenas cultivando a terra não explorada. No entanto, ao compor o Haiku é possível detectar as quatro estações do ano e descobrir a imensidão do universo através de transição das estações. Mesmo que venha morrer à toa, ainda consegue-se ter a salvação ao acreditar que sua vida continua eterna como parte da natureza do Brasil.

Mesmo seguindo ou não seguindo a doutrina do uso de belezas da natureza como tema chave da poesia, o Haiku dos imigrantes nikkei do Brasil tocam profundamente o nosso coração.
A última obra apresentada será o Haiku da Hoen Ishikawa (nasceu em 1893, imigrou em 1930). “Ela nunca mencionou o que fazia no Japão ou para que, e com quem veio ao Brasil. Pessoas disseram que ela estudou medicina e casou-se com pessoa da mesma profissão e vieram em casal ao Brasil, no entanto seu marido logo retornou ao Japão. Só sabe-se que ela saiu de São Paulo e viveu servindo de empregada para um estrangeiro até mudar-se para uma casa de repouso.” (prefácio da coletânea de Haiku “Harukaze: coletânea de Haiku”Nansenshi Watanabe). (Harukaze significa brisa da primavera).


Brisa da primavera, ao sair do portão não sou mais empregada
       Hoen Ishikawa